Machado de Assis não escreveu máximas em almanaque; ele lapidou ideias em romance, conto e crônica, deixando, como subproduto, frases que soam definitivas. A graça é que nenhuma delas veio do nada: cada sentença nasceu de uma cena, um narrador irônico, um conflito humano. É por isso que atravessam o tempo — porque não são slogans, são pensamento em ação.
Neste guia, selecionamos frases célebres, de onde vieram e por que ainda importam. É material para snippet, aula, pauta e repertório. Você vai encontrar amor e ciúme, poder e vaidade, tempo e morte — o circuito completo da condição humana, naquele tom elegante (e ferino) que só Machado sabia.

Amor, ciúme e o labirinto dos afetos
Machado de Assis: frases que ainda definem o amor
Machado desconfiava de definições, mas amava paradoxos. Daí a audácia de escrever, em um conto de espelhos, que a teoria empalidece diante do beijo. A frase é curta, mas carrega tese estética: a experiência manda mais do que o conceito. “A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada.” (Conto “O espelho”).
Ele também desconfiava da constância. Em “Memórias póstumas”, o narrador ri da própria memória emocional: “Não se ama duas vezes a mesma mulher.” A sentença não é um cinismo simples; aponta que amor é também perspectiva — nós mudamos, o outro muda, o tempo muda o que sentimos e o que lembramos.
No romance de formação “Iaiá Garcia”, Machado dá um passo além e mapeia o imprevisto afetivo: “O coração humano é a região do inesperado.” É uma cartografia honesta: quem promete total previsibilidade no amor está vendendo terreno em Marte.
E quando precisava, ele preferia metáforas com cheiro de papel: “O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino… carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.” (“A mão e a luva”). A boutade tem humor, dor e método: amar é texto com começo, meio, fim — e posfácio.
“Olhos de ressaca”: a linguagem do desejo em estado de arte
Em “Dom Casmurro”, o narrador atravessa o século com uma imagem que gruda: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.” A expressão virou senha cultural para falar de sedução e ambiguidade. E Machado ancora a metáfora com outro dardo descritivo: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Aqui não há zoologia do preconceito, mas a sintaxe da suspeita — é o ciúme escrevendo.
Há quem leia Capitu pelo espelho de Bentinho; o importante é notar o dispositivo: o narrador constrói a dúvida, e a frase opera como eixo desse mecanismo. É literatura fazendo do amor um enigma (e do enigma, literatura).
Quando a teoria falha (e o beijo vence)
Machado costumava azedar generalizações. É por isso que, diante do amor, prefere a crise do conceito ao conforto da palavra de ordem. Mais do que responder “o que é amar?”, ele dramatiza o que amar faz conosco. E cada uma dessas frases só atinge o que atinge porque foi tirada do rolo compressor da narrativa — não de um púlpito.
Três golpes de mestre em poucas palavras
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.” A conta de Brás Cubas converte paixão em contabilidade e revela, com humor cruel, a economia dos afetos numa sociedade de aparências. A ironia aqui tem precisão cirúrgica — e eco eterno.
“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” O Conselheiro Aires lembra que a História corre, mas a felicidade mora no quintal — uma ética do íntimo em dias de comoção coletiva.
“Não se delibera sentimento; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer.” (parafraseando um leitmotiv machadiano): se a cabeça quer governo, o coração conspira.
Tempo, morte e a comédia humana
Machado de Assis: frases sobre finitude (sem perder a elegância)
Machado inaugura “Memórias póstumas” com um gesto que ninguém mais ousara: a dedicatória ao nada — ou melhor, ao tudo que nos espera. “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.” Não é morbidez; é uma ética da lucidez: quem fala do alto da morte não tem mais de agradar.
A seguir, ele define o tom do livro: “Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.” Eis o manual do jornalista-escritor que não quer ser panfleteiro nem sentimental: graça e gravidade, juntas, equilibram a crônica da vida.
Há ainda a constatação que vira adesivo filosófico, sem perder densidade: “Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.” A frase não é truísmo; é ferramental. Ela zera as hierarquias, põe ministro e cocheiro no mesmo vagão e permite, ao narrador, dizer verdades sem bajular vivos.
E a aula de edição: “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior… até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.” Machado, editor de si, inventa uma poética do rascunho existencial: crescer é rever, e o último revisor é o tempo.
O vício como adubo da virtude (sim, ele escreveu isso)
Poucos teriam coragem de formular assim: “O vício é muitas vezes o estrume da virtude.” A imagem é provocativa e precisa: a vida moral não é um diagrama limpo — é processo, mistura, contradição. Há um realismo ético aqui: resultados bons às vezes brotam de impulsos discutíveis, e o contrário também é verdade.
Do mesmo laboratório vem a lição de energia vital: “Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.” Em uma linha, Machado aproxima fisiologia e ética, insistindo que o conforto absoluto emburrece — para pessoas e sociedades.
Um epitáfio que virou filosofia doméstica
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Brás Cubas encerra a autobiografia póstuma com essa vitória negativa — não um triunfo sobre o mundo, mas a isenção de um dano. É uma piada? É, mas também é reflexão demográfica avant la lettre. O fecho sublinha a radicalidade do ponto de vista: falar de depois da vida permite contas que os vivos, por interesse, evitam.
Tempo e memória: por que Machado continua trending
As pessoas citam essas frases porque elas cabem numa legenda, mas sobrevivem porque abrem portas. Elas nos obrigam a reler cenas inteiras: o baile, a alcova, o velório, a Rua do Ouvidor. A frase é o gancho; o texto é a queda livre.
Poder, sociedade e a sátira das ideias feitas

Machado de Assis: frases que explicam o Brasil (ontem e hoje)
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.” No romance “Quincas Borba”, o Humanitismo parodia filosofias totalizantes e reduz a política a uma partilha de tubérculos. Por baixo da graça, há diagnóstico: a moral pública costuma seguir o curso do interesse — e o interesse, quando pode, chama-se “colheita”.
“As ocasiões fazem as revoluções.” Em “Esaú e Jacó”, a máxima é dita como quem endireita a gravata. A leitura de bastidor vale mais do que a retórica de palanque: movimentos históricos explodem quando as janelas se abrem — e janelas se abrem por combinações de acaso, desejo e cálculo.
“A loucura, objeto dos meus estudos, foi até agora uma ilha perdida…” Em “O alienista”, o Dr. Bacamarte cria normas para separar sãos e insanos — até que as normas o devoram. A frase anuncia que qualquer ciência da normalidade é, em parte, ficção regulatória. A sátira é um espelho; quem olha demais, vira personagem.
O retrato do ciúme como política da linguagem
O ciúme em “Dom Casmurro” não é só moral; é sintaxe. “Olhos de ressaca” virou nossa metáfora coletiva para tudo que nos puxa e nos afoga. Eis a astúcia: Machado explica o Brasil por capricho de um narrador — e explica narradores por capricho do Brasil.
Três flechas contra o senso comum
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.” Amor, contrato e risada, tudo numa linha.
“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” Antes do “cuidar de si” virar moda, Machado já sabia onde mora a felicidade operacional.
“Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.” Linguagem que pesca o leitor pela imagem, não pela tese.
17 frases geniais, com obra de origem
“A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada.” — Conto “O espelho”.
“Não se ama duas vezes a mesma mulher.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“O coração humano é a região do inesperado.” — Iaiá Garcia.
“O amor é uma carta… carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.” — A mão e a luva.
“Olhos de ressaca? Vá, de ressaca.” — Dom Casmurro.
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” — Memorial de Aires.
“Ao vencedor, as batatas.” — Quincas Borba.
“As ocasiões fazem as revoluções.” — Esaú e Jacó.
“A loucura, objeto dos meus estudos, foi até agora uma ilha perdida…” — O alienista.
“Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Cada estação da vida é uma edição… até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“O vício é muitas vezes o estrume da virtude.” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto…” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…” — Memórias póstumas de Brás Cubas.
“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” — Dom Casmurro.
Machado de Assis continua a ser citado não porque escreveu “frases de efeito”, mas porque escreveu frases que têm efeito. Toda vez que puxamos uma dessas sentenças para iluminar uma discussão de hoje, fazemos exatamente o que ele queria: usar a ironia como método, o afeto como lente, a dúvida como motor. Ao reencontrá-lo, a gente entende que boa literatura é ferramenta de uso diário.
O amor que se explica mal, o poder que se disfarça de princípio, a moral que tropeça no desejo — tudo isso está ali, à espera de uma leitura atenta e de um leitor com humor. Sim, dá para postar no feed. Melhor ainda: dá para pensar um pouco mais antes de postar, como faria o próprio Machado. E se nos faltar uma definição final, lembremos a do conto: nenhuma definição vale um gesto vivo. Em literatura (e na vida), o que importa é a cena — e o que ela nos faz sentir.
É por isso que essas 17 frases sobrevivem ao uso excessivo nas timelines. Porque, quando a maré passa, o que sobra não é a legenda pronta: é a inteligência do texto, ainda nos puxando pela gola — de ressaca.
Perguntas frequentes (FAQs)
As frases de Machado de Assis estão em domínio público?
Sim. As obras de Machado (falecido em 1908) estão em domínio público. Por segurança, cite sempre a obra de origem e, quando possível, o capítulo.
Posso usar essas frases em títulos ou chamadas jornalísticas?
Pode — e funciona muito. Só evite deslocá-las do sentido original; um bom uso traz o contexto da obra em uma linha de apoio.
Qual é a melhor edição para conferir as citações?
As edições digitais do Ministério da Educação (MEC) e acervos de universidades brasileiras têm bons textos de referência — use-as para checar grafia e pontuação.
“Olhos de ressaca” descreve Capitu ou o ciúme de Bentinho?
Ambos. A força da frase é justamente ser prova de leitura — e não prova jurídica. Machado constrói um narrador que nos obriga a desconfiar dele.
Por que “ao vencedor, as batatas” é tão citada em política?
Porque resume, em sátira, a lógica de repartição de ganhos em disputas de poder. É crítica ao fatalismo “realista” que naturaliza injustiças.
Machado era pessimista?
Era lúcido. A ironia dele não nega a vida; evita autoengano. Note que, mesmo diante da morte e do fracasso, ele sorri — e nos ensina a ler melhor.