O que é, afinal, a oração de São Francisco original?
É a prece iniciada por “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”, celebrizada pelo verso “onde houver ódio, que eu leve o amor”. Apesar da atribuição popular, não há registro dela nos escritos de Francisco de Assis. A forma conhecida surge, em francês, em 1912.
Quem assina? Ninguém: o texto apareceu de modo anônimo numa revista católica de Paris, ganhou o mundo na Primeira Guerra e, anos depois, foi ligado ao santo por afinidade espiritual. Mais importante que o autor é o método que ela propõe: transformar contradições em gestos concretos.

O que a tradição chama de “oração de São Francisco” (e por que ela não é medieval)
Origem documentada: de Paris ao planeta
A prece foi publicada em dezembro de 1912 na revista La Clochette (“A Sineta”), editada pela Ligue de la Sainte-Messe, em Paris. Estava intitulada “Belle prière à faire pendant la Messe” (“Bela oração para dizer durante a Missa”) e sem autoria. Pesquisas históricas indicam que muitos textos da revista eram do padre Esther Bouquerel — hipótese plausível, não prova definitiva.
Em 20 de janeiro de 1916, o L’Osservatore Romano imprimiu uma tradução italiana na primeira página, em plena guerra; a partir daí a oração se espalhou e passou a circular também em santinhos franciscanos na França por volta de 1918. A primeira versão em inglês surge em 1927, num periódico quaker. A associação direta a São Francisco só se consolidaria mais tarde, por afinidade com seu carisma.
Linha do tempo comentada

Acima, você vê a linha do tempo documentada com quatro marcos: 1912 (La Clochette), 1916 (L’Osservatore Romano), c. 1918 (santinho em Reims) e 1927 (primeira versão em inglês). Esse percurso explica por que a oração é moderna e, ainda assim, profundamente franciscana no espírito.
O “texto original”: como reconhecer a versão matriz
O texto matriz é o francês de 1912, começando por “Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix” e seguindo com pares de antíteses: ódio/amor, ofensa/perdão, discórdia/união, erro/verdade, dúvida/fé, desespero/esperança, trevas/luz, tristeza/alegria. Na segunda metade, a ênfase vira atitudes: consolar, compreender, amar, dar, esquecer-se, perdoar, morrer para ressuscitar.
Em português, a abertura consagrada diz: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”. E o verso mais citado — palavra-chave de busca — é “onde houver ódio, que eu leve o amor”, eixo espiritual de toda a peça. Essas linhas aparecem em inúmeras traduções fiéis ao espírito do original.
Estrutura em números (para ler no mobile)
O gráfico “Estrutura da oração — contraste e atitude”, acima, resume a arquitetura do texto: 8 versos de contrastes seguidos de 7 versos de atitudes. Essa cadência explica por que a oração é tão memorizável: ela começa nomeando o mundo como ele é e termina convocando o sujeito a agir.
Sentido de cada verso: do conflito à decisão (guia de leitura)
Os oito contrastes: diagnóstico espiritual do nosso tempo
“Ódio/amor” e “ofensa/perdão”
O coração da oração de São Francisco original admite que o ódio existe — não o nega. A resposta é ativa: semear amor onde ele falta e oferecer perdão onde houve dano. Isso não é ingenuidade; é escolha deliberada por reconciliação.
“Discórdia/união” e “erro/verdade”
A prece não confunde paz com silêncio. Pedir união supõe reparar a verdade ferida. Em contextos de desinformação, esse par soa ainda mais atual: união não é unanimidade; é vínculo justo.
“Dúvida/fé” e “desespero/esperança”
A dúvida é humana; a fé, aqui, é confiança perseverante. Onde o desespero toma conta, a esperança vira obra: reorganizar rotinas, pedir ajuda, construir pontes. A oração empurra a fé para o cotidiano.
“Trevas/luz” e “tristeza/alegria”
Trevas não são apenas más notícias; às vezes, são opacidade interior. Levar luz implica clarear processos, mostrar caminhos, abrir janelas. A alegria final não é euforia: é efeito de vida reconciliada.
As sete atitudes: um método prático de conversão
“Consolar mais que ser consolado”
A pergunta subentendida é: o que eu posso fazer agora pelo outro? Consolar não elimina minhas dores, mas dá sentido a elas.
“Compreender mais que ser compreendido”
A postura investigativa tem efeito desarmante. Ouvir antes de responder diminui ruído e disputa.
“Amar mais que ser amado”
Amar primeiro não garante retorno, mas interrompe ciclos de hostilidade.
“Dar, esquecer-se, perdoar”
Dar tempo, atenção e recursos cria margens de paz. Esquecer-se não é se anular; é relativizar o ego. Perdoar não apaga a justiça, mas permite recomeços.
“Morrer para ressuscitar”
A linha final usa uma metáfora pascal: morre o narcisismo, ressuscita a vida em plenitude. É o clímax do método.
Como rezar hoje: uso pessoal, familiar e comunitário
Passo a passo para incorporar a oração
- Contexto e silêncio. Um minuto de respiração profunda já muda a qualidade da prece.
- Nomeie seu “onde houver…”. Identifique ódios, ofensas, dúvidas concretas.
- Comprometa um gesto. Saia da oração com um ato: telefonema, pedido de perdão, doação, estudo, conciliação.
- Retorne ao texto. Reze diariamente por uma semana; depois, semanalmente.
Em voz alta ou em procissão? Funciona nos dois modos
Na liturgia ou em momentos pessoais, alternar leitor e assembleia ressalta a cadência dos contrastes. Em casa, famílias podem intercalar cada par com exemplos concretos da semana.
Para quem busca consolo específico, a oração pode encerrar uma novena com intenções particulares — pela cidade, por enfermos, por reconciliações.
“Oração de São Francisco” para animais e doentes: o que é e o que não é
Francisco é padroeiro dos animais e da ecologia, por isso circulam preces como “oração são francisco de assis animais” e “oração são francisco de assis animais doentes”. Essas devoções não fazem parte do texto original de 1912, mas são legítimas práticas de piedade popular, focadas em pedir cuidado e responsabilidade com a criação.
Se você deseja rezar nessa intenção, uma fórmula simples é: agradecer pela vida do animal, pedir sabedoria para tratá-lo com dignidade, solicitar saúde segundo a vontade de Deus e comprometer-se com o cuidado responsável. Isso honra o espírito franciscano sem adulterar a oração histórica.
Pergunta clássica: afinal, São Francisco escreveu?
Não. Nem a oração aparece nos escritos de Francisco, nem seu vocabulário é típico dele. O vínculo nasceu porque o conteúdo combina com o carisma do santo — e cresceu com reimpressões, cantos e usos públicos no século XX.
Fundamentos históricos, resumidos
Pesquisadores franciscanos e historiadores como Christian Renoux demonstraram a origem moderna, a publicação em La Clochette e a difusão por meio de jornais católicos e cartões devocionais durante e depois da Grande Guerra. Atribuições fantasiosas a personagens medievais também apareceram no caminho — parte do “telefone sem fio” da história.
O que fica do “original”
Mais do que caçar a “única” versão, vale preservar o método: olhar o mundo sem negar o mal e responder com escolhas que refazem o tecido social. É por isso que a frase-chave “onde houver ódio que eu leve o amor” permanece perene — simples, verificável e transformadora.
Dados e visuais para guardar
Estrutura da oração

Anatomia do texto
O segundo gráfico mostra por que o texto “cola” na memória: primeiro contrastes (8 versos), depois atitudes (7 versos). É como se a oração dissesse “veja o problema, agora escolha o antídoto”.
Conclusão
A oração de São Francisco original é, na verdade, uma oração pela paz do início do século XX, anônima e de alcance global. O crédito a Francisco nasceu do parentesco espiritual, não da caneta do santo — e isso não diminui sua força; amplia. Que a sua leitura nos empurre a transformar ambientes, uma linha de cada vez.
Se este conteúdo te ajudou a entender o que é, quem escreveu e por que a oração segue viva, acompanhe análises e reportagens no Página Seguinte. Lá você encontra mais história, cultura e fé explicadas com clareza e profundidade.
Perguntas Frequentes (FAQs)
A oração de São Francisco foi mesmo escrita por ele?
Não. A forma conhecida surge em 1912, em francês, de autoria anônima, e foi associada a São Francisco por afinidade espiritual.
Qual é o “texto original”?
O francês de 1912 da revista La Clochette, começando por “Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix”. As traduções em português derivam dele.
De onde vem o verso “onde houver ódio que eu leve o amor”?
É a primeira antítese do bloco inicial, um resumo pedagógico do método: identificar o mal e responder com o bem.
Quando a oração apareceu em jornais e santinhos?
Em 1916, foi traduzida no L’Osservatore Romano; por volta de 1918, saiu em santinhos com imagem de São Francisco; em 1927, apareceu em inglês nos EUA.
Existe versão oficial em português?
Não há “versão única” oficial. Há traduções fiéis ao espírito do original francês, com pequenas variações de vocabulário.
Posso rezar pelos animais com a oração?
Sim, como intenção. Para pedidos por animais doentes, use a oração pela paz e acrescente preces específicas pela vida e pela cura responsável. Isso respeita o carisma de Francisco.
A música “Fazei-me instrumento de vossa paz” é a mesma coisa?
É uma adaptação musical popular a partir de 1967, não idêntica ao texto de 1912 e com pequenas variações.
Por que tanta gente ainda acredita que foi Francisco quem escreveu?
Porque a prece reflete sua espiritualidade e foi amplamente difundida por franciscanos, líderes religiosos e meios de comunicação no século XX.
Posso usar a oração em casamentos e funerais?
Sim. Ela é ecumênica, centrada em virtudes que servem a ritos de reconciliação e de despedida.
Qual é a melhor maneira de começar?
Silencie, leia um par por dia e decida um gesto correspondente. A oração funciona como plano de vida: simples, repetível, eficaz.
Notas e fontes essenciais: Estudos de Franciscan Media sobre a origem e a ausência do texto nos escritos do santo; levantamento histórico que localiza a primeira publicação em La Clochette (1912) e a difusão via L’Osservatore Romano (1916), santinhos de Reims (c. 1918) e versão inglesa (1927).